quarta-feira, 23 de junho de 2010

Eco


Será que alguém vai tirar isso de mim um dia? Quem, se não há ninguém?
Ele não me leva a sério, posso ver o riso em cada palavra. Ele faz de propósito, só para mostrar o sorriso perfeito. Mesmo assim me contento com as migalhas de amor, só para manter um contato infame. Melhor que nada.
Ele me fez escrava, cativa de alguma coisa que desconheço. Então vôo alto, cada vez mais alto. Eu deveria temer o tombo, eu sei.
E por isso atiram sobre mim palavras truncadas, elas batem com força no meu rosto e vão escorrendo ate o chão. Permaneço firme e sorrio. Como uma mulher.
Mas à noite elas ecoam entre as paredes do meu quarto. Umas sobre as outras, ensurdecedoras, me deixando louca. É um inferno! Tenho vontade de gritar mais alto que elas, mas me contenho.  A porta fica aberta, mas ele nunca entra para silenciar o quarto. Então desabo, como uma criança.
Só melhora quando o telefone me acorda no cume da noite. Cada vibração, uma explosão. Não olho de imediato, só para prolongar a doce e ingênua expectativa. Em segundos, o quarto vai silenciando, as palavras vão sumindo. Não há mais um som sequer, nem mesmo a respiração. E então sou feliz por uns instantes e durmo em paz abraçada ao travesseiro. Como um a criança.


Luciana B.

domingo, 20 de junho de 2010

Amanhecer

Hoje saí de casa em um horário atípico. Às escondidas. O Relógio do carro marcava 6:27 da manhã. Quando olhei para o céu, levei um susto: ele estava divino, sereno, inexplicável. Havia um mesclado de azul com laranja tão fascinante que eu esqueci que estava dirigindo, não conseguia olhar a rua nem o carro à minha frente. No caso de qualquer movimento brusco, uma batida seria inevitável. Ainda que os prédios da cidade estivessem na frente do céu lindo, a vista continuava exuberante. Meus olhos ardiam, eu dormiria assim que cedesse ao peso das pálpebras, mas a vista suprimia o incômodo e me despertava.


No caminho de volta, a rua era íngreme. Olhei no retrovisor e me apaixonei pelo céu novamente. À minha frente, o mesclado, no espelho, o sol aparecia tímido, cintilando por entre as árvores que fechavam a avenida, varrendo a rua delicadamente. Minha vontade era apenas de ter uma câmera nas mãos, senão ao menos um papel e uma caneta. O que eu queria mesmo era parar o carro no meio da rua, sentar no asfalto frio e observar a exuberância daquele céu, em puro êxtase. A natureza exclamava por um pouco de atenção, tentava gritar mais alto que a cidade, pareceu-me que eu era a única a lhe dar ouvidos.



O sujeito ao meu lado exclamou que nem tudo era digno de uma fotografia, às vezes a memória bastava. Discordei, mas não respondi. Estava longe... Eu precisava de uma foto sim, pois as palavras não bastariam. Muito menos a memória.



Chegamos em casa e deitamos enquanto o dia terminava de amanhecer. Acordei sozinha e me perguntei se o céu ainda estava lindo. Depois do banho, vi no espelho meus olhos borrados de maquiagem, ainda assim sai à sacada envolvida na toalha para ver se o céu me esperava. Mas ele se fora. O céu estava azul, como todos os dias. Apenas mais um céu.

Lu Bratcho

terça-feira, 15 de junho de 2010

Que é isso, menina?

 Mas que loucura é essa, menina?
Que coragem, quanta irresponsabilidade.

Marias me passam, me olham, me encaram e intrigam a si próprias.
Os Josés não imaginam o que se passa, apenas observam a vontade do beijo.
Não quero fitar teus olhos de Kaa.
Nos olhos de Shere Khan não olho por não confiar.
Mas teus olhos de Kaa escondem o entorpecer e o hipnotizar.
Evito já que apenas teu sorriso me faz reticenciar...

Mas que situação é essa, menina? O mesmo autor, o mesmo filme.


As cartas me chegam com um sorriso. E nos olhamos como tão familiares.


Açúcar e  morango. Pimenta. Fermentado.

Saia justa.

Heresia ou nao, parece que hoje olhei nos olhos de Deus.

.Reggina Caeiro.

Revolution


Ele ainda me revolta depois de tanto tempo.

O beijo ainda é o mesmo.
Pro toque não há explicação.
Nem motivos.

Ele pensa ser querido.
Pra cada olhar tenho um rebote,
E pra cada maledicência, sou toda ouvidos.

E é essa a raiz da revolta.


Revolução renasceu revirando rendas e retificando reticências.
Pensei petrificar-me pelo pensamento peticioso de pena.
Sinto o silêncio singular. Minha singela simpatia.
Corro conhecendo corpos e corvos, corações e companhia.

É essa minha revolta. É nao saber o que fazer com a presença dele.


.Reggina Caeiro.

sábado, 12 de junho de 2010

Nem tão satisfeita ...

Como diz a letra de Marisa Monte, quem foi que disse que é impossível ser feliz sozinho? Não entendo essa neura, nem essa incessante busca de muitas mulheres e meninas por um simples namorado.
Namorados só trazem problemas, só enchem a paciência. São ciumentos e melosos.
Namorados nos tiram do sério, só servem para brigar e discutir relacionamento.
É possível ser feliz sozinha sim! Nós, solteiras, vivemos tranqüilas, a liberdade é quem nos faz carinho. Somos livres! Livres para viajar, desbravar o mundo, não somos escravas do telefone nem damos satisfação. Não temos ninguém que nos prenda.
Mas por sermos livres demais, às vezes nos perdemos, andamos soltas, desorientadas. Sozinhas.
Não tem com quem brigar ou discutir relacionamento.
Não tem pra quem ligar o tempo todo quando bater a saudade. Ou para dizer “liguei só pra ouvir sua voz”.
Não tem ninguém para nos prender. Prender num abraço forte e abrasador, que sufoque o coração e abafe o peito, amolece o corpo e aquece a alma.
É não ter companhia para desbravar o mundo.
É não ter alguém que nos tire do sério, que nos deixe loucas.


Tofu

.
I could write the most common words today.
I could say he’s handsome, I could say he’s charming.
But that would never be special, and would be far away from what I mean.

I could remember him all day long.
I could be with him, just for fun.
I could wonder what he’s thinking about.
I could wander sad for thinking he’s not mine.

But the way I get him is like a special menu.
I meet a sympathetic and aggressive man at the same time.
And the love I get from him is a different kind of feeling.
It is a hot passion with affection, but no link.
And every time we meet it looks like his body is printed on my skin with ink.

The ink disappears with the time.
And so my memories someday will.
It’s not necessary thinking about it now, I’m fine.
And warm still.

He kills me and makes me live again.
I faint in his arms.
He doesn’t say my name, but I wake up with no pain.
Each time is better.

I couldn’t write the most beautiful words today
Because I left them on the sheet, on the pillow.

I could write the most common words today.
He’s my killer tofu.
Reggina Caeiro

terça-feira, 18 de maio de 2010

Última carta a Caprio


Querido , Caprio


Você deve saber que não me deu nada do que eu queria, você não me correspondeu da maneira como eu esperava, não cumpriu o que disse, nem disse o que deveria. Ainda assim te agradeço pela única coisa que você me deu: inspiração.
Por sua causa minha cabeça lateja por imaginação, borbulha palavras. Ah... As palavras, Caprio! Elas roubaram de você toda a minha atenção e minha dedicação. Nelas encontrei refugio para a minha loucura e conforto para a minha desilusão. Descobri que elas são muito mais dignas do meu amor do que você. Elas são muito mais estáveis e lindas, muito mais! São eternas.
Os planos que construí com você ruíram e hoje não passam de pó. As palavras não. Elas se edificam, se modelam à minha maneira e permanecem. Elas são espontâneas, não mentem nem decepcionam. Por isso eu amo quase todas elas.
As únicas palavras que eu odeio são os versos de amor. Tento fugir das músicas e filmes românticos. Quero distância das letras melosas, piegas, toscas, ridículas e de cenas de romance tão surreais porque elas me trazem à memória tudo o que eu gostaria de esquecer. Ainda entalam minha garganta, embaçam meus olhos e perturbam o meu coração. Coração ridículo, tosco.

  Luciana

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Pretérito Mais-que-perfeito do Subjuntivo

Reggina diz:   O que você mais gosta de fazer em momentos como esse?
Gil-Galad diz: Fazendo com vontade já é mais que perfeito…


Até hoje tudo que fiz foi com vontade.
Com vontade de te roubar pra mim, por uns tempos.
Tempos em um lugar deserto, totalmente deserto.

Nosso Pretérito foi Mais-que-perfeito. Fomos Subjuntivos um ao outro.


O Pretérito Mais-que-perfeito do Subjuntivo constitui-se de forma composta. Exige dois verbos, um Auxiliar no Presente do Subjuntivo e um principal no Particípio.

Esta modalidade é empregada em duas situações:
Exprimindo uma ação anterior a uma ação passada e exprimindo uma ação passada da qual se duvida ou até uma ação passada hipotética…

Temos os seguintes exemplos:


    Se não tivesse experimentado teu sabor, de nada seriviria meu paladar.


    Gostaria de que você tivesse chegado antes de eu ingressar nesse universo de desejos.

   
    Ultimamente, para que eu tivesse encontrado o tal pote de ouro no final do arco-íris, você tinha que estar comigo…


Pretérito Mais-que-perfeito do Subjuntivo…:

Tudo que se faz com vontade é mais que perfeito…


Exigência de dois verbos: um maior (mais de 1m80) e um menor (menos de 1m60), juntos, com o mínimo de espaço, formam a modalidade que constitui-se de uma forma composta indicando uma ocorrência anterior a um passado:

Não me arrependo de sequer um segundo vivido com você. Apenas queria que tivesse acontecido antes.

Você nos faz historiadores de um Pretérito Mais-que-perfeito do Subjuntivo: compostos, dois verbos dependentes.

Transeuntes de um Presente sedentos pelo Indicativo.
Fazer, amar, deleitar…






.Reggina Caeiro.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Virtualmente



E eu que pensei um dia que os sentidos humanos tão essenciais pudessem se reduzir a um chip ou uma tela plana.
E eu que pensei que seria feliz substituindo o seu toque, o seu cheiro e o seu gosto por um cubo preto, frio, insípido.
E eu que, inconsciente, tornei um computador meu amante e um celular, meu confidente.

Será muito insano se apaixonar virtualmente? Como isso foi acontecer se tão pouco nos tocamos, apenas nos teclamos?

E eu que, orgulhosa, não queria admitir a falta que sinto do nosso convívio virtual e a dor que sinto porque acabou.

E eu que, ingênua, pensei que seria fácil deletar você da memória.

Luciana

terça-feira, 4 de maio de 2010

Confusão

Me encontro tão imóvel que vi o tecido que cobria meu peito se movendo devido às batidas do meu coração.
Aquilo parecia se elevar a metros acima pois mais nada no quarto se movia. Somente o músculo.

Nem a respiração se mostrava.


Em paralelo, havia uma movimentação muito intensa em minha mente. Uma confusão de sentimentos.

À minha frente, páginas rabiscadas. Palavras que tentei expressar mas que saíam sem sentido.

Nessa bagunça, o que posso organizar é o pensamento de que:


O Amor é desordenado.

O tesão é perigoso.
Dó é o pior sentimento.

O amor é desordenado.

Se antes, eu pensava que havia momento certo para expressar o amor, hoje penso que devemos expressá-lo à medida em que o sentimos.
Se antes eu imaginava que o amor só acontecia com o passar do tempo, hoje acredito no tal amor à primeira vista.
Se antes eu não acreditava que os opostos se atraem, hoje vejo um atleta super-ativo se apaixonando por uma leitora sedentária.


O tesão é perigoso.

Pode destruir relacionamentos se dedicado a rumos indevidos. O tesão faz a cabeça girar, o corpo estremecer e as ideias se bagunçarem. O tesão por um pode me fazer esquecer, desrespeitar e trair o outro. O tesão não pode ser tudo, até mesmo em relacionamentos como o de Reggina e Gil-Galad. Não sou qualquer mulher.


Dó é o pior sentimento.

Procuro não senti-lo. Evito ao máximo dizer seu nome. Não posso retribuir a todos os pedidos, olhares e desejos, mas não por isso sentirei dó. Por alguns sinto desprezo, pois é merecido. Mas aos bons que tentaram doar seu amor e não foram retribuídos, minha eterna gratidão por tais sentimentos. São vocês que nos fazem sentir especiais, diferentemente dos cafajestes pelos quais nos apaixonamos.


Obrigada por me amar.

Obrigada por me desejar.
Obrigada por me valorizar.


.Reggina Caeiro.