sexta-feira, 25 de junho de 2010

Quebra-Cabeça



   Leia ouvindo Yann Tiersen - "La Noyee"


  Ainda que meses se despeçam sem que eu te sinta ao menos distante, e ainda que eu não te reconheça mais.
  Ainda que clichês me importunem, e que minha mente ainda tenha outros horizontes à frente, as vezes que sempre me envolvem por sua hipnose me reservaram uma surpresa na última noite.

  Gostoso, saboroso. Carinhoso, silencioso.
  Ninguém me ouvia. "O que era de mim naqueles momentos?" Ninguém sabia, e eu não queria que soubessem.
  Importava-me que você imaginasse o lugar do meu desejo, e não foi difícil de encontrar, não é?

  É assombroso como te dar prazer me proporciona o dobro.
  É sua sombra projetada na minha boca, aquele desenho na minha pele.

  O incomum pro desejo me deixa incomum ao simples e é o que sempre incidiu na sua "existência".

  A surpresa me veio com uma mistura de texturas, adicionada a um ritmo mais lento, quase um acalento.
  Um acalento muito sensual pro amor, e que não vem sem fervor.
  Ele vem com uma dormência no rosto, típica minha de quando não estou sozinha.

  Essa dormência me vem com um sorriso, porque o significado dela é tesão.
  E é a sua boca, o seu beijo, o seu toque, as suas mãos.
  A forma como me pulsa o corpo quando brincamos de quebra-cabeça.
  Às vezes algumas peças elevadas, muitas vezes de costas, todas úmidas.

  Lentamente, ritmicamente.
  Rapidamente, e ainda ritmicamente.
  Descompassado ou maestrado. É magistral sempre.





.Reggina Caeiro.


quarta-feira, 23 de junho de 2010

Eco


Será que alguém vai tirar isso de mim um dia? Quem, se não há ninguém?
Ele não me leva a sério, posso ver o riso em cada palavra. Ele faz de propósito, só para mostrar o sorriso perfeito. Mesmo assim me contento com as migalhas de amor, só para manter um contato infame. Melhor que nada.
Ele me fez escrava, cativa de alguma coisa que desconheço. Então vôo alto, cada vez mais alto. Eu deveria temer o tombo, eu sei.
E por isso atiram sobre mim palavras truncadas, elas batem com força no meu rosto e vão escorrendo ate o chão. Permaneço firme e sorrio. Como uma mulher.
Mas à noite elas ecoam entre as paredes do meu quarto. Umas sobre as outras, ensurdecedoras, me deixando louca. É um inferno! Tenho vontade de gritar mais alto que elas, mas me contenho.  A porta fica aberta, mas ele nunca entra para silenciar o quarto. Então desabo, como uma criança.
Só melhora quando o telefone me acorda no cume da noite. Cada vibração, uma explosão. Não olho de imediato, só para prolongar a doce e ingênua expectativa. Em segundos, o quarto vai silenciando, as palavras vão sumindo. Não há mais um som sequer, nem mesmo a respiração. E então sou feliz por uns instantes e durmo em paz abraçada ao travesseiro. Como um a criança.


Luciana B.

domingo, 20 de junho de 2010

Amanhecer

Hoje saí de casa em um horário atípico. Às escondidas. O Relógio do carro marcava 6:27 da manhã. Quando olhei para o céu, levei um susto: ele estava divino, sereno, inexplicável. Havia um mesclado de azul com laranja tão fascinante que eu esqueci que estava dirigindo, não conseguia olhar a rua nem o carro à minha frente. No caso de qualquer movimento brusco, uma batida seria inevitável. Ainda que os prédios da cidade estivessem na frente do céu lindo, a vista continuava exuberante. Meus olhos ardiam, eu dormiria assim que cedesse ao peso das pálpebras, mas a vista suprimia o incômodo e me despertava.


No caminho de volta, a rua era íngreme. Olhei no retrovisor e me apaixonei pelo céu novamente. À minha frente, o mesclado, no espelho, o sol aparecia tímido, cintilando por entre as árvores que fechavam a avenida, varrendo a rua delicadamente. Minha vontade era apenas de ter uma câmera nas mãos, senão ao menos um papel e uma caneta. O que eu queria mesmo era parar o carro no meio da rua, sentar no asfalto frio e observar a exuberância daquele céu, em puro êxtase. A natureza exclamava por um pouco de atenção, tentava gritar mais alto que a cidade, pareceu-me que eu era a única a lhe dar ouvidos.



O sujeito ao meu lado exclamou que nem tudo era digno de uma fotografia, às vezes a memória bastava. Discordei, mas não respondi. Estava longe... Eu precisava de uma foto sim, pois as palavras não bastariam. Muito menos a memória.



Chegamos em casa e deitamos enquanto o dia terminava de amanhecer. Acordei sozinha e me perguntei se o céu ainda estava lindo. Depois do banho, vi no espelho meus olhos borrados de maquiagem, ainda assim sai à sacada envolvida na toalha para ver se o céu me esperava. Mas ele se fora. O céu estava azul, como todos os dias. Apenas mais um céu.

Lu Bratcho

terça-feira, 15 de junho de 2010

Que é isso, menina?

 Mas que loucura é essa, menina?
Que coragem, quanta irresponsabilidade.

Marias me passam, me olham, me encaram e intrigam a si próprias.
Os Josés não imaginam o que se passa, apenas observam a vontade do beijo.
Não quero fitar teus olhos de Kaa.
Nos olhos de Shere Khan não olho por não confiar.
Mas teus olhos de Kaa escondem o entorpecer e o hipnotizar.
Evito já que apenas teu sorriso me faz reticenciar...

Mas que situação é essa, menina? O mesmo autor, o mesmo filme.


As cartas me chegam com um sorriso. E nos olhamos como tão familiares.


Açúcar e  morango. Pimenta. Fermentado.

Saia justa.

Heresia ou nao, parece que hoje olhei nos olhos de Deus.

.Reggina Caeiro.

Revolution


Ele ainda me revolta depois de tanto tempo.

O beijo ainda é o mesmo.
Pro toque não há explicação.
Nem motivos.

Ele pensa ser querido.
Pra cada olhar tenho um rebote,
E pra cada maledicência, sou toda ouvidos.

E é essa a raiz da revolta.


Revolução renasceu revirando rendas e retificando reticências.
Pensei petrificar-me pelo pensamento peticioso de pena.
Sinto o silêncio singular. Minha singela simpatia.
Corro conhecendo corpos e corvos, corações e companhia.

É essa minha revolta. É nao saber o que fazer com a presença dele.


.Reggina Caeiro.

sábado, 12 de junho de 2010

Nem tão satisfeita ...

Como diz a letra de Marisa Monte, quem foi que disse que é impossível ser feliz sozinho? Não entendo essa neura, nem essa incessante busca de muitas mulheres e meninas por um simples namorado.
Namorados só trazem problemas, só enchem a paciência. São ciumentos e melosos.
Namorados nos tiram do sério, só servem para brigar e discutir relacionamento.
É possível ser feliz sozinha sim! Nós, solteiras, vivemos tranqüilas, a liberdade é quem nos faz carinho. Somos livres! Livres para viajar, desbravar o mundo, não somos escravas do telefone nem damos satisfação. Não temos ninguém que nos prenda.
Mas por sermos livres demais, às vezes nos perdemos, andamos soltas, desorientadas. Sozinhas.
Não tem com quem brigar ou discutir relacionamento.
Não tem pra quem ligar o tempo todo quando bater a saudade. Ou para dizer “liguei só pra ouvir sua voz”.
Não tem ninguém para nos prender. Prender num abraço forte e abrasador, que sufoque o coração e abafe o peito, amolece o corpo e aquece a alma.
É não ter companhia para desbravar o mundo.
É não ter alguém que nos tire do sério, que nos deixe loucas.


Tofu

.
I could write the most common words today.
I could say he’s handsome, I could say he’s charming.
But that would never be special, and would be far away from what I mean.

I could remember him all day long.
I could be with him, just for fun.
I could wonder what he’s thinking about.
I could wander sad for thinking he’s not mine.

But the way I get him is like a special menu.
I meet a sympathetic and aggressive man at the same time.
And the love I get from him is a different kind of feeling.
It is a hot passion with affection, but no link.
And every time we meet it looks like his body is printed on my skin with ink.

The ink disappears with the time.
And so my memories someday will.
It’s not necessary thinking about it now, I’m fine.
And warm still.

He kills me and makes me live again.
I faint in his arms.
He doesn’t say my name, but I wake up with no pain.
Each time is better.

I couldn’t write the most beautiful words today
Because I left them on the sheet, on the pillow.

I could write the most common words today.
He’s my killer tofu.
Reggina Caeiro