Ah... Ele veio de camisa xadrez, sorrateiro. Me olhou despretensioso, insinuante, daquele jeito...
Fingi que não sentia nada, mas as palavras tremulavam de desejo.
Fitou meu decote, me elogiou.
No silêncio atacou.
“Que vontade de te dar um beijo”. Ali me pôs em cheque.
Quis que ele viesse de uma vez, matasse toda a vontade.
Hesitei, estava prestes a contra-atacar.
Esquivei.
Agora temo o arrependimento e ouço o eco da sua voz no meu quarto...
Quase posso sentir aquelas mãos na minha cintura.
Só de imaginar, enlouqueço. Suspiro...
Agora, a vontade ferve, desconcentra, me faz ansiar pela próxima vez.
Luciana
Ouvi o som da guitarra e me lembrei das noites embriagadas na sacada. A voz me lembrou das inconseqüências que nos acompanhavam durante toda a madrugada. Sentávamos na cadeira, às vezes na rede, apenas como bons amigos esperando ansiosamente pelo momento da entrega. Por vezes eu temia que ela nunca chegasse, então minhas expectativas se desmanchavam na fumaça do cigarro.
Quando eu menos esperava, ele vinha por trás e mudava o rumo da noite. A música nos envolvia tanto que eu me esquecia do que viria amanhã, sem pensar aonde chegaríamos... Sem querer, íamos até onde nunca havia imaginado. Não com ele.
Mesmo que meu pensamento fosse de outro, meu corpo era todo dele.
Foram longas as noites de dúvidas e entregas. Cigarros, bebidas e beijos. Noites frias e boas.
Até que um dia, voltamos a ser só os bons amigos que deixaram as recaídas e as loucuras. Grande amigo que hoje não me desperta mais os desejos.
Mas que, ainda como amigo, me desperta uma lúgubre e amarga saudade.
Luciana